2026-01-23 14:32:00
“Inventaste isso tudo, não foi?”, ouviu muitas vezes a peruana Gabriela Wiener. Esteve à frente do seu tempo quando, em 2008, publicou Sexografias — livro de crónicas e reportagens onde há poligamia, Nacho Vidal, swing e uma jornalista envolvida na própria acção. Sobre tudo isto falou num local curioso: uma antiga igreja, em Óbidos.
Foi durante a última edição do Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. Na Livraria de Santiago, a jornalista e escritora, que nasceu em 1975 em Lima, no Peru, e vive em Espanha desde 2003, conversou com a travesti, feminista, professora e escritora brasileira Amara Moira, autora do livro E se Eu Fosse Puta, sobre Sexografias, reunião de reportagens de jornalismo gonzo, editado em Portugal pela Antígona em Setembro do ano passado.
Um dia a revista colombiana Soho fez a Gabriela Wiener uma proposta que lhe parecia impossível. Queriam que ela “defendesse o indefensável: um pénis pequeno”. Conta-o nas notas de rodapé de “Nacho monta quinze”, uma das histórias de Sexografias. “Um dos meus argumentos foi que eu sabia do que falava, porque tinha experimentado o maior pénis do mundo, que me deixara indiferente.”
Gabriela Wiener escreveu um perfil da estrela porno espanhola, quando o catalão Nacho Vidal tinha 33 anos. Descreve-o deitado na cama de um quarto de hotel, atolado de roupa suja, com CD pornográficos e “pénis a emergir do chão” — réplicas do seu longo pénis transformadas em dildos. Nacho Vidal confessa-lhe nessa altura que se excita mais com uma mulher que não se depila do que com aquelas com quem contracena, depiladas e com corpos 90-60-90.
A estrela porno Nacho Vidal
ENRIC VIVES-RUBIO/Arquivo
“Já não sei quantas vezes disse a este garanhão que não lhe mostrarei os meus pêlos, mas é evidente que não acredita em mim. Como poderei negar-me a satisfazer com uma ninharia o desesperado rei do sexo, como poderei deixar o matador a suplicar, que tipo de estranho filme pornográfico é este?”, escreve a peruana em Sexografias, cujas reportagens foram feitas numa altura em que tinha um grande desejo de aventura e de viver experiências a partir de um lugar que não era teórico.
Algumas histórias, como “Guru e família”, a história de Ricardo Badani, foram escritas quando ela ainda vivia no Peru. “É sobre um polígamo e as suas seis mulheres. Basicamente, tinham-me sequestrado na casa onde viviam e ainda assim aprendi bastante com eles. Ele era muito machista e elas eram muito livres. Não eram lésbicas, mas estavam felizes por estar juntas e eu achava isso maravilhoso”, contou Gabriela Wiener na sessão na Livraria de Santiago.
Em “Na prisão da tua pele, um corte”, outra das histórias deste livro, Wiener entra na prisão de alta segurança de Lurigancho, em Lima, no Peru, como uma mulher que pretende visitar um dos presos. Lá a esperava Calambrito, que, como ela escreve no livro, “prometera” guiá-la “pelo inferno”. É uma reportagem em que tenta fazer uma leitura das tatuagens dos presos e ouve histórias de amor e de dor. Em “Fui uma freak (mas operei-me)”, Wiener fala do seu corpo, de quando lhe nasceram mamas debaixo das axilas e da cirurgia que fez para removê-las. Mas Sexografias tem também relatos de experiências de descoberta do corpo — como “Workshop ‘A minha vulva, a minha vagina’”, “Orgasmo que chora” ou “#nãoéurina”.
Para lá do jornalismo gonzo
Reportagens como “O planeta dos swingers”, sobre os clubes de troca de casais, já foram escritas na Europa porque, explica, no Peru não existiam essas festas privadas. “Vou a um clube de swingers, arrasto o meu companheiro para esse horror e toda a história e a crónica é sobre vê-lo a sofrer ao meu lado”, lembrou Gabriela Wiener na conversa com Amara Moira. Era também a época em que em Barcelona “reinava o cinema erótico” e havia já várias clínicas de reprodução assistida com doação de óvulos.
Nessa altura, recordou, o actor pornográfico mais famoso do mundo era Nacho Vidal, conhecido pelo tamanho do seu pénis, e o Festival de Cinema Erótico de Barcelona era um dos eventos mais importantes da cidade, onde muitas das caves albergavam masmorras BDSM e em cujas ruas era possível cruzarmo-nos com mulheres dominatrix e os seus escravos. Era também a época em que o Bagdad, com espectáculos de sexo ao vivo, era o clube nocturno mais visitado de Espanha.
“Era um local de efervescência total”, afirmou Gabriela Wiener, que acabou “raptada” por toda “essa folia sexual” a acontecer na cidade e a integrou na sua obra. “Depois, tudo sairia de moda”, afirmou também em Óbidos, “mas eu tinha muitas ganas de contar essas histórias”. E queria contá-las à maneira do jornalismo gonzo, criado pelo norte-americano Hunter S. Thompson (1937-2005), “em que o jornalista deita fora o gravador e o bloco de notas e começa a contar tudo a partir do interior”.
“Levo muito a sério o meu jornalismo gonzo. Se ia contar essas histórias a partir da minha carne e de uma maneira vivida, não poderia passar pelo Festival de Cinema Erótico de Barcelona sem experimentar o seu representante mais importante”, disse entre risos, referindo-se ainda ao perfil “Nacho monta quinze”, que escreveu numa altura em que se tornara já uma espécie de repórter de sexo e tinha o desejo de experimentar ter sexo com um actor pornográfico — “e não com um qualquer, mas sim com o melhor”, como escreve com muito humor em Sexografias. Algo a que o marido não achou piada nenhuma inicialmente, mas pareceu compreender.
“Não é um livro masturbatório”
Quando publicou pela primeira vez este livro, os seus amigos que escreviam ou faziam cinema que já não se enquadrava na pornografia convencional (o chamado pós-porno) asseguravam-lhe que Sexografias não era um livro erótico, nem pornográfico. “’Sexografias é um livro pós-porno’, diziam-me e isso ressoou em mim. Achei muito interessante esta ideia de que não tinha escrito um livro masturbatório, de que não tinha escrito um livro que procurava um fim — no sentido de um fim excitatório, de um fim que termina num orgasmo —, mas que era antes um percorrer destes caminhos do desejo e que também se transformava num anticlímax.”
Gabriela Wiener considera que fez um livro sobre sexualidade, sobre desejo, sobre o corpo, sobre política sexual, onde procurou surpreender o leitor, que já vai embalado nesse registo mais erótico e sexual, com um desvio, com alguma coisa que o faz pensar, que o faz emocionar, chorar ou rir às gargalhadas. “Tudo isto a literatura, por outro lado, agradece. Porque a literatura é também esse território, tal como o sexo, onde cabe a surpresa e o sair dos lugares-comuns”, disse. “É importantíssimo manter o desejo vivo. Então o meu livro é também sobre como foder ou como se deveria foder [gargalhadas] ou como eu desejaria amar alguém fisicamente. Sexografias está, de facto, para além da pornografia e para além da mera observação. Desloca-te e leva-te para outro lado.”
Daniel Rocha
Antes da sessão na Livraria de Santiago, Gabriela Wiener, também autora de Retrato Huaco (2021, nomeado para o International Booker Prize 2024 na sua tradução inglesa, também já editado pela Antígona) conversou com o Ípsilon. Quando comentámos como era incrível que estes seus textos, muitos do início dos anos 2000, se mantivessem tão actuais, tão vivos, tão interessantes, como se o tempo não tivesse passado por eles, a escritora explicou que os tinha feito com essa vontade.
Em Sexografias estão as versões finais das suas reportagens, perfis ou crónicas, mas muitos foram feitos para a revista peruana de jornalismo literário Etiqueta Negra, ou para a revista colombiana Soho. “Foi uma época muito poderosa para o jornalismo narrativo, a crónica e a não-ficção em geral. Lembro-me até de uma reportagem de capa no Babelia, do El País, sobre o boom da crónica e do jornalismo narrativo. Escrevi estes textos a partir do início do milénio. No Peru, por exemplo, escrevi ‘Viagem pela ayahuasca’ e a história de Ricardo Badani. Estas foram as minhas primeiras histórias publicadas na Etiqueta Negra.”
Esta revista foi fundada pelo premiado jornalista e editor Julio Villanueva Chang, que fundou também a Etiqueta Verde. “Estou-lhe muito grata porque foi um pouco o meu mentor durante esses anos. De facto,[oseditoresda[oseditoresdaEtiqueta Negra]incutiram em nós um sentido da importância da escrita transcender o tempo.” Queriam “ser a The New Yorker”, diz, a rir-se. Admiravam a revista norte-americana, mas também se regiam pela forte tradição do jornalismo narrativo da América Latina. “Nessa época, os cronistas mais em voga eram Martín Caparrós ou Juan Villoro, que são agora clássicos, mas Leila Guerriero também estava a emergir. Mas o que eu queria dizer sobre os textos parecerem não ter envelhecido é que estávamos a escrever para que esses textos permanecessem”, diz Gabriela Wiener ao Ípsilon.
Gabriela Wiener escreveu na revista peruana Etiqueta Negra — alguns dos textos de Sexografias foram lá publicados
Daniel Rocha
“Apesar de virmos do jornalismo — porque todos os que escrevemos para a Etiqueta Negra éramos pessoas do mundo do jornalismo, a escrever em redacções e a fazer coisas de que não gostávamos porque tínhamos de trabalhar —, quando fazíamos coisas para a Etiqueta Negra colocávamo-nos no lugar da literatura, no lugar da transcendência”, acrescenta. Trabalhavam o intemporal apesar de estarem também a falar do “presente mais ardente” — e isso marcou. “Falar de jornalismo literário ou de jornalismo narrativo também tem que ver com essa característica da literatura, que é a de perdurar.”
Libertação da Etiqueta Negra
A Etiqueta Negra tinha o seu próprio estilo e as suas próprias regras. “Tanto era assim que acho que isso afectou, por vezes, o estilo de quem lá escrevia. Era uma edição muito invasiva, quase uma hiperedição, pois tinham o New York Times e a New Yorker como exemplo. Julio Villanueva Chang era muito obsessivo e estava a treinar outros jornalistas para serem editores obsessivos também. Então, na Etiqueta Negra gostavam de serem quase co-escritores, eram muito participativos, digamos assim.”
Gabriela Wiener considera que nessa época era “uma pessoa dócil”, mas já sabia como dar alguma identidade aos textos. “Eu tinha a minha voz e eles certificavam-se de que a minha voz brilhava. Tiravam a folhagem a mais, podavam-me, afinavam-me o texto. Davam muitas orientações. Eram muito claros em relação à estrutura dos textos”, recorda ao Ípsilon.
Em cada trabalho devia existir “uma parte cénica, uma parte de acção — como se houvesse um guião prévio a cada história — e havia também uma parte mais dura com factos, informação e conhecimento, baseada na investigação, na leitura de livros, nas citações, em oposição a outras partes em que a história fluía mais”. Por tudo isto, Wiener considera que a Etiqueta Negra foi a sua escola. “Mas também foi muito importante para mim romper com essa escola, como se rompe com um pai ou uma mãe. Foi necessário cometer parricídio, deixar-me ir… para me poder encontrar, para conseguir fazer com que a minha voz se exprimisse realmente.”
A escritora e jornalista, que estudou literatura e linguística na Universidade Católica de Lima e tem um mestrado em Cultura Histórica e Comunicações pela Universidade de Barcelona, sentia que as histórias da Etiqueta Negra acabavam por ser muito idênticas umas às outras. “Portanto, tal como a descoberta da Etiqueta Negra tinha sido um marco para mim, também a libertação da Etiqueta Negra foi um marco na minha carreira. Foi muito importante libertar-me da Etiqueta, do seu jugo, dos seus editores, e começar a acreditar em mim, a acreditar no meu ponto de vista, e a ter outro tipo de editores, menos intervencionistas.”
Em qual dos seus textos essa mudança já está reflectida? “Em ‘Trans’, uma das histórias que já não fiz para a Etiqueta Negra.” O que há de muito interessante nessa história é que a jornalista, na época, tinha sido mãe há pouco tempo e meteu tudo isso na sua reportagem. “Estava na época pós-parto, na verdade, porque o leite estava já a transbordar”, conta.
Neste texto, como em outros reunidos em Sexografias, Gabriela Wiener não tem receio de confessar os seus medos, de dizer aos leitores que está numa situação em que tudo pode acontecer e é incontrolável. “Eu era muito aventureira. Toda a minha literatura não-ficcional se tem baseado a 100% na experiência e na experimentação. É também verdade que este tipo de jornalismo era habitualmente masculino, os chamados jornalistas de imersão, que iam para o terreno experimentar as coisas. Várias vezes partilhei fóruns com jornalistas que, esses sim, realmente estavam em risco, fosse nas fronteiras do México ou com traficantes de droga. São esses a quem chamo jornalistas audazes. Muitos me aplaudiam pela audácia e pela minha falta de medo, por causa do nível de risco que podia correr, mas eu lembrava-lhes sempre que eu não estava a arriscar nada ao meter-me em algumas camas ou ao atrever-me a fazer algumas coisas. É um campo diferente, não é? É um jornalismo de outro âmbito, embora por vezes nos festivais nos misturem a todos.”
O lendário clube nocturno Bagdad, em Barcelona, alvo de um dos textos de Sexografias
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Gabriela Wiener acabava por falar sobre o corpo, sobre sexualidades diversas, sobre a aventura humana que é a sexualidade, enquanto os seus colegas falavam de desaparecidos, de mortos, de tráfico sexual e de escravatura. “Isto para mim é de alguma forma incomparável. Mas também não vou ser modesta. Nestas histórias, quando olho para elas agora, com a maturidade que fui ganhando, vejo uma jornalista e cronista muito intrépida, capaz de tudo e muito divertida.”
Acenamos com a cabeça. É absolutamente verdade que todos estes seus textos contêm um imenso sentido de humor. “Parece-me de louvar quando no nosso ofício se consegue pôr algum humor, interessa-me uma literatura viva, uma escrita vibrante, que bate, que transpira, que voa. Uma escrita física, ligada ao corpo e à performance. É por isso que sempre disse que estas histórias de Sexografias, que podem ser lidas como crónicas, como contos, como relatos, são crónicas do corpo relacionadas também com a exposição de uma vulnerabilidade.”
Com isto, Gabriela Wiener quer dizer que a valentia não tem tanto que ver com o facto de ela ter entrado numa prisão de alta segurança ou de ter tido sexo com o actor pornográfico da moda. “Mas com o quanto consigo passar aos outros das inseguranças que tive com o meu companheiro para entrar num clube de troca de casais, ou o tremor no encontro com aquela mulher trans, quando estamos a comparar os nossos seios e eu estou com uma mastite por causa da amamentação, com febre e com saudades da minha filha. [A valentia] é fazer com que essa intimidade transpareça e brilhe.”
Estes textos, considera, trazem-nos o olhar de uma mulher, que se assume como bissexual, que tem as suas vulnerabilidades também no novo continente para o qual migrou e desconhecido para si. Algo muito diferente do jornalismo gonzo de Hunter S. Thompson (1937-2005), “um psicadélico, um bêbado, um toxicodependente, com outro tipo de experiência.”
Nestas suas crónicas, a peruana procurou também fazer uma recolha da vivência do íntimo. “Se há espectacularidade, se há brincadeira e se há loucura, há também aqueles momentos em que dei acesso a lugares que têm mais que ver com a literatura pessoal”, afirma. Um pouco como aquelas que também considera suas mestras, Joan Didion (1934-2021) ou Vivian Gornick, escritoras norte-americanas ou outras, suas contemporâneas, com quem tem estado em sintonia, as jornalistas e escritoras Josefina Licitra, argentina, ou María Fernanda Ampuero, equatoriana. “Todas escrevemos a partir das nossas entranhas, a partir das nossas emoções, sem medo de pôr a nossa carne na grelha e de colocar a nossa vulnerabilidade na mesa, o que também é ser corajoso.”
“Muitos pensaram que Sexografias era um livro de ficção. Diziam-me: ‘Inventaste isso tudo, não foi? É impossível que tenhas ido…’ O que causava mais dúvidas era eu ter feito sexo com uma estrela do cinema porno como Nacho Vidal. ‘Mas por que raio o actor Nacho Vidal se havia de interessar por ti?’ Havia uma interpretação tendenciosa e um ponto de vista racista também. Houve realmente uma tendência imediata de me encaixar numa determinada gaveta. Não sabiam como abordar o livro quando saiu. Diziam que tinha sido escrito por uma sexóloga ou por uma sexopata [risos]. Houve quem me escrevesse a pedir conselhos sexuais, outros queriam namoriscar comigo, houve quem quisesse que eu convencesse as suas mulheres a fazerem um ménage à trois e a participarem em orgias.”
Sem máscaras
A edição de Sexografias publicada em Portugal segue a edição de 2024, tem um prólogo de Camila Sosa Villada e é uma edição anotada por Gabriela Wiener. Essas anotações são muito importantes para a leitura e enquadramento destes textos que no livro ganham uma outra dimensão. “São importantes porque eu tive de fazer uma espécie de revisionismo da minha existência e do meu trabalho”, explica ao Ípsilon. “Tive de reconhecer que na altura em que estes textos foram publicados já eram considerados corajosos e que até havia alguma incredulidade quanto a serem reais ou não, por parecerem tão arrojados. Mas a verdade é que eu não estava a contar tudo o que tinha acontecido e ria-me sozinha porque eu tinha feito coisas muito piores. Então decidi: porque é que não conto o que escondi desta vez? Então surgiram as notas de rodapé que têm um pouco de tudo, têm um pouco de confissão…”
Algumas, como na história que abre o livro, “Guru e Família”, em casa do polígamo Ricardo Badani, confessa nas notas: “Sei o que estão a pensar. Por que demónios não contei nada disto no texto oficial? Semanas depois, escrevi e publiquei a crónica sem uma única menção ao que acabo de narrar. A primeira razão é que, quando por fim me fui embora daquela casa, não tinha intenção de contar o que aconteceu a ninguém, nem sequer ao Jaime, o meu companheiro. (…) Como poderia contar isto a todo o Peru? Por isso, decidi que, a certa hora da noite, no exacto momento em que entrava no jardim com Badani, a jornalista saía pela porta. A peça jornalística terminava ali. E eu continuava a viver.” Houve momentos em que Gabriela Wiener sabe ter atravessado os limites da ética jornalística, mas conta-o nas notas que estão no livro. “Quis fazê-lo, porque era como se eu já me estivesse a marimbar para o jornalismo, e dissesse: ‘Sabem que mais, não me vão impor nada agora. Vou ser eu própria a ultrapassar os limites que sempre ultrapassei na vida e na escrita. Por isso decidi dar esse passo.”
Ricardo Badani e as suas mulheres
Por outro lado, as próprias narrativas já contêm muito dos bastidores de cada história. “É muito interessante deixar que vejam os buracos na nossa escrita e da nossa profissão, que quer sempre aparentar ter uma objectividade total, ou tenta esconder o facto de que por detrás dela há uma pessoa com os seus preconceitos, com a sua cegueira, que vai julgar a realidade a partir das suas origens, por aquilo que viveu, pelos seus privilégios, etc.”, diz-nos Gabriela Wiener, que sempre escreveu a partir do lugar que lhe coube expressar. “É um bom gesto a ter com o leitor, mostrar que estás a narrar a partir de um determinado lugar. Até pode ser a partir da contradição, que está em todos os meus livros. Na verdade, somos pessoas contraditórias. Eu não sou a jornalista exemplar, não sou a repórter exemplar, não sou a companheira exemplar, nem a poliamorosa exemplar, nem a mãe exemplar.”
À escritora, agrada-lhe muito “o processo de desmascarar”. Aliás, Sexografias é dedicado “ao J., o meu herói mascarado”. E, ao Ípsilon acrescenta, que quem leu Retrato Huaco saberá quem é. “Apercebi-me agora que Sexografias tem uma dedicatória a um homem mascarado e é um livro que na verdade tem muito sobre desmascarar. Tem muito de desmascarar-me, de desmascarar os nossos preconceitos, de desmascarar os tabus e acabar com eles.”
Em Sexografias fala do seu método de abordagem dos entrevistados e também da forma como gere as histórias. “É especialmente curioso pensar como é que esta repórter entrou num clube de swingers, se despiu e conseguiu reproduzir o que se passou sem tirar notas. Claro que há um ponto em que a recolha de dados não pode ser feita como habitualmente. Nesse momento eu estava com o meu companheiro e ele também era uma espécie de memória, como se fosse um disco rígido que eu tinha lá [gargalhadas].”
Explica que durante a noite ia contando coisas a quem a acompanhou à festa, pedia-lhe para não se esquecer daquilo que ela lhe ia dizendo: “Para além disso, foi preciso escrever logo que cheguei a casa, deitar tudo cá para fora. Também é verdade que naquele caso eu não tinha necessidade de identificar as pessoas, ao contrário de outras situações. Mas habitualmente levava gravador e fazia também gravações do ambiente e das situações. Quando fui jornalista infiltrada, por exemplo, no texto da reportagem da prisão, pude tomar notas, não havia qualquer problema com isso.”
Mas para entrar na casa de Ricardo Badani foi revistada. Viram se não tinha gravadores ou telemóveis antes de a deixarem entrar. “Não vou vender-vos a ideia de que estou a fazer a crónica de investigação mais exaustiva com tudo comprovado e o fact-checking feito. É verdade que as crónicas que foram publicadas em revistas passaram por fact-checkers, é assim que funciona. Mas digamos que, ao fazer a edição de Sexografias, também pude ter mais liberdade nesse sentido, pois estou diante de um texto que para mim se tornou literário. Não no sentido de ter inventado a história, porque ela continua a ser uma história de não-ficção. Quando falo do literário, estou a referir-me aos recursos que fazem com que a história seja lida como se lê uma história literária.”
Uma “viciada em sexo”, uma “doidinha”
O que é que aprendeu sobre si própria e o que é que aprendeu sobre os outros com estas suas reportagens?, perguntamos à escritora, que já recebeu o Grande Prémio Nacional de Jornalismo do Peru por uma reportagem de investigação que fez sobre um caso de violência de género.
“Este é um livro de uma aprendiza da diversidade. A voz narrativa que começa a contar Sexografias é uma pessoa cheia de vontade de ter aventuras que ainda não viveu. Tem impulsos. Parece-lhe que naquela família poligâmica há qualquer coisa que a interessará; ou que naquela relação de casal entre duas pessoas trans há algo que a une a esse mundo, sendo que ela é cis. Cada uma das histórias de Sexografias é uma história de transformação. Todas são histórias em que se mostra que alguém entra ali, com a sua ingenuidade, os seus preconceitos, e que não sai igual. Isso é muito evidente, por exemplo, na experiência com a ayahuasca, uma experiência mística. Mas eu estenderia o místico a todas as experiências que aparecem nesse livro de tipo sexual, íntimo ou que têm que ver com o desejo. O desejo é central e o que essa Gabriela — a do livro — faz é desejar muito. De certa maneira, essas experiências de imersão, nesses mundos que não eram os seus, são experiências místicas que a mudam de cima a abaixo. Mudam a sua visão e sobretudo levam-na a aceitar algumas coisas que não sabia sobre si própria”, reflecte.
Nesse sentido, a escritora considera tudo o que lhe aconteceu depois, não só na sua obra como na sua vida, está ligado a Sexografias. Durante oito anos, formou uma família com o poeta e jornalista Jaime Rodríguez Z e a música e activista espanhola Rocío Lanchares Bardají, os três cuidando de dois filhos, um deles em comum, e retratou-o na peça, dirigida por Mariana de Althaus, e no livro Qué locura enamorarme yo de ti, embora não esteja numa relação poliamorosa neste momento.“Eu não poderia ter aceitado o meu ‘ser’ não-monogâmico, por exemplo, se não tivesse conhecido aquela família poligâmica. Embora a minha experiência numa relação poliamorosa fosse muito diferente, porque a poligamia é muito diferente do poliamor, está tudo relacionado, sem dúvida.”
Gabriela Wiener
Daniel Rocha
Tal como estas histórias evoluíram das revistas e dos jornais para os livros, o mesmo aconteceu com quem as escreveu. “É como uma história aberta, que continua”, diz ao Ípsilon. “Estas são histórias que são contadas por uma pessoa que não é branca”, algo que mais tarde a escritora retomará em obras como Retrato Huaco ou em Nueve Lunas, ainda não traduzido em Portugal, em que aborda a sua experiência de maternidade em Espanha. “É impossível compreender Nueve Lunas sem o cruzar com o facto de eu ser uma migrante no mundo medicalizado das maternidades em Espanha e do que significa dar à luz na Europa, sendo como sou”, explica. Outro dos exemplos que dá é o da questão da doação de óvulos, na história incluída em Sexografias intitulada “Adeus, ovócito, adeus”, em que conta como foi descriminada quando tentou doar os seus óvulos. “Eles ainda nem sequer eram fetos [risos] e já estavam a dizer-me: ‘Não precisamos de ameríndios’!”
Neste livro escrito há duas décadas, já havia temas que hoje entraram no senso comum. “Pode-se ver aqui é o eixo da raça, o eixo do género… E, no entanto, quando Sexografias saiu, eram apenas intuições. Nessa altura, eu nem sequer me considerava feminista.” Lembra-se muito bem de nessa época ter sido entrevistada por uma amiga, um pouco mais velha do que ela, que era uma feminista militante nos anos 2000 e que esta lhe disse que este era um livro extremamente feminista. “Eu insistia: ‘Mas tens a certeza?’ Porque eu estava ainda imbuída desses ecos dos anos 90, de uma Geração X apolitizada, porque eu venho de uma família muito política [é filha da assistente social Elsi Bravo e do analista político e jornalista Raúl Wiener], mas tinha querido distanciar-me. Afinal tinha acabado por fazer um livro muito político.”
No entanto, “Sexografias foi um livro sexualizado pelas masculinidades hegemónicas”, diz. Lembra que o tipo de artigos que escreviam sobre ela, as perguntas nas entrevistas, os comentários nos sites, tudo estava impregnado de misoginia e de racismo também. “A primeira edição de Sexografias não foi valorizada como uma obra de uma escritora, mas de uma viciada em sexo, de uma doidinha… Que o livro continue por aí tantos anos depois, que seja reeditado e que esteja agora traduzido para português, é para mim reparador. Porque somos tantas a escrever e a ser metidas em gavetas. Isto acontecia basicamente para subestimar o que estávamos a fazer. Por isso, apareciam rótulos como os de literatura feminina, literatura do eu, activismo. “Isto desanimou-nos e durante anos foi muito duro.”
Houve uma evolução, acredita a escritora. Há um impulso para que os temas da dissidência, das mulheres, comecem a ser considerados temas literários. Já começam a ser temas centrais na literatura contemporânea, considera. Agora lê-se muito, publica-se muito, e as mulheres lêem-se umas às outras, diz. “A verdade é que eu publiquei pela primeira vez este livro em 2008, dez anos antes do boom da mais recente vaga de feminismo, que aconteceu em 2017, e senti que os meus livros também tinham de fazer parte dessa vaga e de ser reeditados.” A escritora via que estavam a escrever-se muitos livros sobre a maternidade, sobre o corpo, sobre o desejo, sobre a diversidade sexual e que ela já o tinha feito décadas antes. “Por isso, tive de aparecer. E regressei.” [Gargalhadas] Mas foi com Retrato Huaco, em 2021, que a sua carreira teve um enorme impulso. “Mudou completamente a minha vida como escritora”, diz. “O romance está na sua décima segunda edição em Espanha e foi vendido em muitas línguas.”
O PÚBLICO esteve em Óbidos a convite do Fólio — Festival Literário Internacional de Óbidos